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13 de novembro de 2017

Mais uma mensagem XXIII

Sofia estava esfomeada. Nessa manhã tinha saído de casa sem tomar o pequeno-almoço e quase nem tinha tido tempo para tomar um duche. Tinha acordado atrasada, não ouvira o despertador e pensava que era domingo, o seu único dia de folga. Saltara da cama assim que se apercebera das horas e do dia. Chegou à livraria mesmo à hora de abrir as portas, nem tivera tempo de passar na pastelaria Charme para o cafézinho matinal. Agora que era quase meio-dia preparava-se para ir almoçar com a sua colega Paula ao café perto do seu trabalho. Normalmente ficavam por ali, comiam uma sopa e um rissol ou um folhado misto, bebiam um café e punham a conversa em dia. A Paula era uma miúda gira, muito comunicativa e expressiva. Era um pouco mais velha que Sofia e morava sozinha na zona do Bairro Alto. Era atriz de teatro e aspirava ser conhecida na sétima arte. Para ganhar mais algum dinheiro, fazia animação sócio-cultural em escolas e colégios da zona. Não tinha namorado embora toda a gente insistisse em dizer que já tinha idade para casar. Tinha uma "amiga". Era assim que ela falava da sua companheira. Nem toda a gente entenderia aquele amor entre duas mulheres. Mas Sofia sim. Sofia entendia e apoiava-as no que fosse necessário. Saiam muitas vezes as três, mas ninguém diria que era um casal de lésbicas e uma hetero. Sofia sonhava com o dia em que as mentalidades mudariam.  Estando o mundo em constante evolução Sofia sabia que mais cedo ou mais tarde iria ser normal o amor entre pessoas do mesmo sexo. Gostaria muito que um dia, as suas amigas pudessem beijar-se em público, andar de mãos dadas e quem sabe, casar, sem serem discriminadas e postas de parte pela sociedade retrógrada do nosso país.
Paula sabia que Sofia andava enrolada com um rapaz comprometido. Paula não condenava Sofia e até a instigava a tentar mais do que apenas umas noites com ele. Poderiam vir a ser um casal...
Sofia entrou  no café e viu que a sua amiga Paula já tinha chegado e estava sentada na mesa do costume, junto à janela para se divertirem a observar os transeuntes atarefados que por ali passavam.
- Oi miúda! Estava a ver que nunca mais chegavas. - disse Paula, levantando-se para abraçar  e cumprimentar Sofia.
- Cala-te, hoje é um dia para esquecer!  Acordei tarde e pronto, a partir daí já sabes, foi uma correria para chegar à loja. O trânsito infernal da ponte... buhhhh... Fiquei com trabalho atrasado de ontem, umas encomendas que chegaram ao fim do dia... hoje passei a manhã a tratar do assunto. Ainda nem bebi café!
- Que mal... Mas, olha deixa lá que tenho uma novidade para te contar! Nem vais acreditar... - Os olhos de Paula brilharam e o sorriso aberto deixou antever que algo de muito bom se passava na vida da sua amiga.
- Ui, ui.... conta, conta! Quero saber o que te deixou assim tão feliz!
- Sim, conto já, mas vamos pedir primeiro... O que vamos comer? Uma tosta?- Paula fez sinal ao empregado que se aproximou com um bloquinho de folhas brancas e um pequeno lápis de carvão que já merecia um encontro imediato com um afia-lápis. Pediram tostas mistas, sumo de laranja e enquanto aguardavam, Paula confidenciou o que a havia deixado felicíssima.
- Vou trabalhar para Nova Iorque!!!! I'm going to the big apple!!! Can you believe it? - Anunciou Paula com um sorriso de orelha a orelha!
- What? A sério?? Mas, mas... como? O que vais fazer? Tens lá emprego? - Sofia estava incrédula, mas feliz pela sua amiga.
- Sim! Há uns tempos fiz uns castings para uns gajos americanos. Se queres que te diga, já nem me lembrava... Telefonaram-me há uns dias. Não te vou contar pormenores, "details" mas vou assinar contrato e fico por lá uns meses. Estou tão feliz amiga! O meu sonho está prestes a realizar-se! E a Zé vai comigo, claro!
- Paula!!! Fogooo, estou tão feliz por ti, por vocês... mas só me apetece dizer-te "Também quero ir" - abraçaram-se felizes. A hora de almoço foi passada a conversar sobre o assunto do momento e até marcaram um jantar de despedida para a sexta-feira seguinte. Despediram-se felizes e voltaram aos seus empregos.
Sofia continuou muito atarefada durante o resto do dia. Aproximava-se a altura de Natal e havia novos livros para colocar nas prateleiras, mais clientes a procurar obras para oferecer e Sofia nem deu pelo tempo passar. Eram quase 19horas quando entrou um cliente que Sofia não esperava atender. Filipe acabava de aparecer à sua frente com um livro acabado de tirar, aleatoriamente ou não, da prateleira "The Girl who loved Tom Gordon" de Stephen King.
- Boa noite, menina! - disse Filipe, fingindo um ar sério - Gostaria de saber se me aconselha este livro...
- Boa noite, caro senhor! - Sofia entrou na brincadeira - Devo dizer-lhe que Stephen King é apenas o melhor contador de histórias fantásticas, de sempre. Eu sou suspeita pois adoro todos os seus livros, no entanto devo dizer-lhe que esse não é dos melhores, mas creio que deverá gostar. Presumo que saiba ler inglês... - piscou-lhe o olho e sorriu.
- Presume bem, cara menina! Vou levar o livro. - Filipe entrega o livro a Sofia e os seus olhares mantêm-se presos e Sofia pergunta se ele vai levar mais alguma coisa.
- Sim, posso levá-la  também comigo? - fez o seu melhor ar de "engatatão" e Sofia desatou a rir.
- Hahaha... Vou ver o que posso fazer... mas daqui a meia hora estarei de saída... se quiser esperar... - pisca-lhe o olho enquanto lhe entrega o talão e o saco com o livro. Demora-se um pouco a observar este cliente. Estava tão bonito! Cabelo bem penteado e preso num rabo de cavalo. Roupa escura, um sobretudo quente e um cachecol cinzento claro que parecia abrilhantar o olhar azul e profundo do cliente-surfista, com ar de intelectual australiano. 
- Eu posso esperar, menina, sei que vai valer a pena.
Filipe dirige-se à porta de saída, e antes da sair vira-se para Sofia, dirigindo-lhe um olhar penetrante:
- Boa  noite menina! Obrigada pelo atendimento simpático. Até à próxima!
- Até já... senhor! - Disse Sofia, piscando-lhe o olho e virando-se com rapidez para a cliente seguinte que presenciara o diálogo mas nem prestara atenção nenhuma à conversa dos dois amantes.
Meia hora depois Sofia fechava e trancava a porta da livraria quando sente alguém a encostar-se, por trás. Poderia ser um assalto, poderia ser um ladrão... e no fundo até era mesmo. Filipe preparava-se para lhe roubar o chão, para lhe tirar o fôlego e deixá-la ofegante.
Era o início de uma grande noite, vivida a dois. Tudo o resto seria cenário e adereços de um palco onde só cabem estes dois atores, onde o improviso é mais importante do que os textos bem decorados e os movimentos estudados e onde no final da atuação não se ouvem aplausos... apenas o silêncio dos olhares de cumplicidade e de agradecimento pelo momento vivido!





19 de maio de 2017

Mais uma mensagem XXII

O quarto não era nada de especial. Pequeno, simples e de cores claras. Não  era um quarto de motel para amantes. Não era um motel. Não tinha um espelho no teto nem flores numa jarra. Era um simples quarto com uma cama no centro, duas mesas de cabeceira, um pequeno sofá azul escuro, já bastante coçado pelo uso. Na parede da cabeceira da cama estava pendurado um quadro grande com uma pintura abstrata em tons de vermelho e preto. Sofia não gostava daquele quadro e nada tinha a ver com o resto da decoração. Das várias vezes que pernoitaram neste quarto, Sofia olhava de soslaio para o mesmo e torcia o nariz. Mas não estava naquele quarto para apreciar arte. A janela antiga, com vista para as traseiras da casa, decorada com um cortinado florido, antigo e fora de moda, era aberta assim que chegavam ao quarto, tal era o cheiro a mofo. Num dos cantos do quarto estava uma mesinha redonda com uma pequena televisão, um candeeiro cuja lâmpada estava fundida e um cinzeiro de metal. Nenhum destes 3 objetos foi usado nessa noite. Mas a cama foi. A cama foi usada apesar de os lençóis não serem de seda, apesar de não haver almofadas a embelezá-la, apesar de não ser confortável.
A cama. O ponto de encontro. O porto de abrigo. O ninho. O núcleo. O ponto de partida de uma relação proibida. O começo de um relacionamento privado. O berço de momentos únicos, irrepetíveis e inesquecíveis. Sofia passou a chamar-lhe "a nossa cama".
Filipe tinha um amigo que alugava quartos para férias, na Nazaré. O negócio havia sido durante muitos anos da sua mãe, a "ti Joaquina", nazarena de sete saias amplamente conhecida por portugueses e estrangeiros que por ali passavam férias. De sorriso simpático cativou milhares de clientes para alugar os seus quartos, rooms, chambres, zimmers.. Assim que a "ti Joaquina" faleceu, o filho Pedro passou a alugar os quartos também aos seus amigos na época baixa, para levarem as suas namoradas ou conquistas. Filipe passou a ser um destes clientes. Um cliente habitual.
Sofia acordou sobressaltada sem saber bem onde estava. Tentava adaptar os olhos à escuridão quando se lembrou. Virou-se na cama e colocou o braço sobre o peito nú, quente e musculado de Filipe. Sorriu e beijou-o ao de leve no ombro. O surfista dormia profundamente. Sofia olhou-o, na penumbra do quarto, observando os traços do seu rosto. Parecia ter sido desenhado por anjos ou arquitetos. Os seus traços eram perfeitos. Inalou o cheiro do cabelo e do pescoço e sentiu o aroma perfeito. Parecia ter sido pensado por perfumistas conhecedores dos aromas e das fragrâncias que Sofia mais gostava. Passou o dedo suavemente pelos lábios do surfista e ele, ainda a dormir, sorriu. Pouco tempo depois Sofia adormecia, também com um sorriso nos lábios.
Tinham tido uma noite perfeita. A primeira de muitas noites que ainda iriam ter. Sofia não se importava  de ser a outra, a amante... Sofia queria viver com Filipe apenas aqueles momentos. Voltou a explicar-lhe que não era  uma mulher para casar. Era uma mulher para ter prazer e dar prazer. Não estava preparada para viver com ninguém. Não queria ter que dividir casa, carro e cama com ninguém. Queria partilhar o seu corpo com Filipe. Queria partilhar sabores, odores, gemidos e sorrisos.
Filipe não se importava. Mas lá no fundo queria ter Sofia todos os dias. Queria ensiná-la a surfar. Queria cozinhar para ele os seus pratos preferidos. Queria poder ver a linda e sensual Sofia a envelhecer a seu lado. Nunca lhe disse isso. Guardou-o para si. Ela  nunca iria entender.
Na manhã seguinte, bem cedo voltaram às suas vidas normais. Nada do que tinha acontecido entre aquelas quatro paredes era para ser partilhado. Nenhum dos momentos vividos naquela cama seria relatado a terceiros. O mundo real jamais entenderia. O mundo real é preconceituoso e cruel. No mundo real não há espaço para eles.
Fecharam a porta do quarto e deram um último beijo. Mas ambos sabiam que não era o último beijo. Ambos sabiam que assim que a fome voltasse e o desejo surgisse, aquela porta tornaria a abrir-se para eles. A cama voltaria a ser a "sua cama". As paredes do quarto pequeno, simples e de cores claras voltariam a presenciar momentos únicos, irrepetíveis e inesquecíveis.

10 de maio de 2017

Mais uma mensagem XXI

Sofia estacionou o carro mas não o desligou logo de modo a poder ouvir até ao fim a mais recente música "Man on the moon" dos norte-americanos REM. Ouvia com atenção a letra enquanto observava  a rua onde se encontrava. Vazia, não se via ninguém por ali. Um nervoso miudinho fê-la estremecer por dentro. Estava uma noite muito escura e estava um frio de rachar.
Acabou de ouvir a música, inspirou fundo e pensou que tinha chegado o momento. O momento de esclarecer tudo com Filipe, com o surfista loiro de olhos azuis que faz o seu coração bater mais forte desde o verão passado. Enquanto subia a rua deserta que a levaria ao encontro marcado, apertou até acima o seu blusão de penas, tremeu de frio e reviu na sua mente o que tinha planeado dizer. Sentia-se nervosa e ansiosa... como uma atriz que se prepara para subir ao palco e estrear uma nova peça. Era a atriz principal e no momento estava com medo de ter uma branca. Tinha tantas perguntas para lhe fazer... mas temia que ao contracenar com o outro protagonista ir-se-ía esquecer de tudo.
Num instantinho chegou ao miradouro que estava praticamente deserto... Olhou para o seu relogio de pulso, 21h35, estava 5 minutos atrasada mas não se preocupava pois andou a adiar este encontro por quase 3 meses.
Percorreu o local com os olhos pouco habituados ainda à luminosidade que se fazia sentir e vislumbrou um grupo de 4 jovens rapazes que, sentados no muro do miradouro, conversam, riam e fumavam uns cigarros duvidosos. Viu também, sentado num dos bancos de madeira da praça, um idoso, provavelmente, sem-abrigo, acompanhado pelo seu cão, por sinal também com bastante idade. Sentiu compaixão pelos dois. Estava frio e ambos mereciam um sitio mais aconchegante e quente para passarem a noite.
Finalmente viu o surfista, sentado no muro do miradouro com as pernas para fora, virado para o precipício e de costas para ela. Tinha o cabelo solto que voava revolto ao sabor do vento frio e agreste que soprava. Suspirou, encheu o peito de ar frio e sussurrou:"Vai-te a ele Sofia"  enquanto dava o primeiro passo da curta caminhada até ele.
- Boa noite! - a voz saiu-lhe rouca e sumida e teve até receio que fosse inaudível. Mas o surfista ouviu e virou-se com rapidez assim que escutou aquela voz doce e sensual...
Com um grande sorriso nos lábios mas olhar inquisidor e reticente respondeu:
- Olá Sofia, como estás? - saltou do muro e ficou de pé em frente a ela com uma tremenda vontade de a abraçar, de a elevar nos braços e de beijar os seus lábios. Conteve-se, mas desejou que aquele encontro permitisse que tal voltasse a acontecer.
Sofia cumprimentou-o, friamente, com dois beijos na face e as suas pernas tremeram e fraquejaram... Era impossível deixar a cabeça mandar, por mais planos racionais e inteligentes que fizesse, por mais séria e adulta que tentasse ser continuava a sentir-se uma adolescente parva que não sabe reprimir e controlar os sentimentos.
Ambos sorriram e durantes uns breves segundos os seus olhares ficaram presos um no outro. O momento foi interrompido pela voz de Filipe:
- Já jantaste Sofia? Podemos ir até ao meu restaurante, comemos qualquer coisa e conversamos. - propôs o surfista.
- Pode ser... ainda não comi nada e gostava de conhecer o teu restaurante. -respondeu Sofia hipnotizada pelo olhar profundo do surfista.
- Então vamos lá! - Filipe estendeu a mão a Sofia de modo a que ela lhe desse a sua mas assim que viu o olhar reprovador da rapariga baixou a mão e riu-se baixinho.
No restaurante, jantaram calmamente e conversaram. Sofia disse-lhe que tinha ficado desiludida com o facto de depois de terem uma noite magnífica de sexo, ele a ter abandonado sem grandes explicações. Acabou por se sentir usada e abandonada. Sabia que ele tinha uma namorada mas achava que merecia uma conversa antes de ele desaparecer.
Filipe sentiu-se terrivelmente mal... acabou por explicar que tinha gostado tanto daquela noite que desde então não pensava noutra coisa. Foi-se embora com receio de se apaixonar por Sofia... Filipe sabia que ela não queria relacionamentos sérios e  preferiu não prolongar algo que não teria futuro.
- Bem, parece que nenhum nós sabe o que o outro quer... ou melhor, nenhum de nós sabe o que quer! - disse Sofia saboreando um gole de vinho tinto.
- Eu sei que te quero Sofia! Sei que todos os dias desde essa noite de verão penso em ti e que me apetece ter-te de novo nos meus braços... - sorriu e esticando o seu braço roçou os seus dedos, ao de leve, na face de Sofia que o olhava embevecida ao ouvir tais palavras.
Fechou os olhos e apreciou o toque carinhoso do surfista. Num repente, sentiu os lábios quentes e macios de Filipe a beijarem os seus. Um beijo intenso, profundo e arrebatador que não durou mais que 3 ou 4 segundos mas que chegou para paralisar a respiração e os batimentos cardíacos dos dois.
- Filipe... és louco! - olhou em volta de modo a perceber se o momento ousado e proibido tinha sido visto por um dos empregados ou pelo casal que jantava na mesa do outro lado do pequeno restaurante. Mas ninguém viu.
- Calma - sorriu Filipe e os seus olhos azuis brilharam de paixão. - Tinha tantas  saudades tuas! Fica cá está noite... comigo!
Sofia nem queria acreditar no que ele lhe estava a propor... Era tão errado, mas tão incrivelmente tentador... Sofia não controlava os seus pensamentos que voaram até à praia da Riviera onde, há apenas 3 meses se entregara a Filipe. A hipótese de voltar a estar com ele, de voltar a senti-lo em si deixou Sofia com a estranha sensação, no baixo ventre, que mostrava claramente o que o seu corpo queria que respondesse.
- Filipe... vou ser muito sincera contigo. Eu vinha preparada para pôr um ponto final neste assunto. Cada qual devia seguir a sua vida e fazer os possíveis para esquecermos tudo o que se passou. - Filipe olhava-a com atenção, mas com um sorriso provocador, antecipando como iria terminar aquele monólogo. - Eu vinha preparada para tudo isso, mas tu tens o dom de me deixar a tremer por dentro... - sorriu e desviou o olhar envergonhada.
- Hum... estou a gostar desta parte... deixo-te a tremer?! - levantou-se rapidamente, piscou-lhe o olho e afastou-se em direção à cozinha do restaurante.
Sofia riu-se e aguardou o seu regresso. Terminava o vinho que ainda tinha no copo quando Filipe regressou com duas taças de mousse de chocolate.
- Espero que gostes de mousse caseira! E espero que não leves a mal esta minha pressa.. é que eu agora só te quero tirar daqui!
- Filipe... tu és mesmo doido!
Sofia sabia que nada do que tinha planeado estava  a acontecer, no entanto, percebeu que naquele momento intenso estavam ambos tão felizes, que nada haveria a fazer. Ia ter de passar a noite por ali... No dia seguinte logo voltaria ao plano A, ou não...

1 de fevereiro de 2017

Mais uma mensagem XIX

Sofia releu a mensagem em voz alta como que a querer ter a certeza de que estava a ler bem...
 "Minha querida, voltei para Nazaré. Tudo o que se passou connosco foi espetacular, mas eu tinha de voltar para a minha namorada. Espero que compreendas. Um beijo. Filipe" 
Voltou para Nazaré??? Assim sem avisar? Ainda ontem... Carambas foi tão especial ontem na praia...- pensava Sofia. Pelo menos para ela tinha sido um momento muito especial pejado de paixão e cumplicidade.
Voltou para a cama cabisbaixa, atirando com raiva o seu Nokia para a mesa de cabeceira! 
Sentia-se usada e perdida. Sentia-se atraiçoada e enganada. Sentia-se roubada e traída. 
Ele tinha-lhe proporcionado uma noite tão especial, ela tinha adorado todos os momentos passados juntos,  tinha até planeado na sua cabeça futuros encontros. Pensava que também ela tivesse sido especial para ele... Caraças... ele era um valente cabrão! 
Saía assim tão repentinamente da sua vida como tinha entrado... mas o estrago que tinha deixado à sua passagem era devastador. Sofia não se sentia preparada para limpar esses destroços.
Recordou-se que tinha sido avisada pela amiga Carlota no dia em que o conheceu "ele tinha namorada e fama de conquistar muitos corações para depois desfazê-los em pedaços". Sim, na altura ela não lhe deu a devida importância mas agora percebia que fora infantil e descuidada.  
Atirara-se de cabeça num precipício onde não vislumbrava o fim... bateu no fundo e machucou-se, mais rápido do que planeara. 
"Que estúpida que és Sofia! Parva, mesmo... estavas a apaixonar-te por ele?... Não devias sentir mais nada a não ser atração física. Que burra..."- Lágrimas encetaram a descida vertiginosa pelas faces rosadas de Sofia. Eram lágrimas de raiva... Raiva que sentia por se ter deixado envolver daquela forma...Apaixonou-se por alguém que não merecia a sua paixão. O Filipe não merecia nenhuma daquelas lágrimas, não merecia qualquer sentimento que pudesse brotar do seu coração magoado e amargurado. 
Quantas mais miúdas estariam a chorar pelo surfista louro? Quantas miúdas teria ele conquistado para uma simples noite de sexo? Quantas mais teriam caído nos seus braços enganadas pelo seu sorriso lindo e olhos azuis?
As perguntas não paravam de surgir na mente angustiada de Sofia e não conseguia desculpá-lo. Não conseguia compreender como é que ele podia dormir de consciência tranquila... Afinal andava a trair a sua namorada e voltava para ela como se nada se tivesse passado.
Sofia resolveu reagir... não podia ficar a chorar por ele. 
- Ahhhhhhh - um grito de raiva acabou por sair da sua boca e em menos de trinta segundos já a sua irmã Rita assomava à porta do quarto.
-Então pá? Estás-te a passar? - perguntou com os olhos tão arregalados que quase lhe saltavam das órbitas ao ver o estado em que Sofia se encontrava -  Que se passa mana? - Questionou com preocupação.
- Não se passa nada - respondeu levantando-se da cama, com uma fúria no olhar e atirando a almofada tentado acertar na irmã - Sai daqui! Deixa-me em paz!

Sofia resolveu tentar esquecer o sucedido. Ía esquecer aquele quente mês de agosto Não podia deixar-se tomar por um sentimento de tristeza e raiva provocados por algo que estava condenado ao fracasso desde o início. Refletiu bastante nos dias que se seguiram àquela mensagem e resolveu tentar esquecer Filipe. Prometeu a si mesma que não voltaria a contactá-lo, apagou o seu número de telemóvel e nem sequer voltou à praia da Riviera. Estava decidida a reencontrar o sossego na sua vida de solteira, livre, autónoma e independente. 
As férias acabaram e voltou ao seu local de trabalho que tanto gostava, numa pequena livraria na baixa lisboeta, onde se podia entreter, distrair e sonhar no meio de livros, autores, clientes e visitantes. Sofia voltava a sorrir e a acreditar que aquele agosto tinha sido apenas um episódio menos bom da sua vida, uma aprendizagem e uma oportunidade para crescer.

Entretanto, na Nazaré, depois de uma hora no mar com a sua prancha, a tentar dominar as ondas rebeldes, traiçoeiras e enormes da praia do Norte, senta-se a observar o mar e um maravilhoso pôr-do-sol. Estava sozinho e os seus pensamentos voam até uma determinada noite de agosto, numa outra praia. Parecia visualizar tudo ao mais ínfimo pormenor, mas o que mais o fazia tremer por dentro era o sorriso sensual e maroto da morena Sofia que teimava em não lhe sair do pensamento.

18 de janeiro de 2017

Mais uma mensagem XVIII

Adormeceram abraçados, sob o céu escuro pontuado por algumas estrelas reluzentes que brindavam ao nascer daquele relacionamento. Adormeceram embalados pelo som das ondas que rebentavam na areia da praia, como que a aplaudirem vagarosamente a paixão que tinha sido vivida naquele areal.
Foi Sofia que despertou primeiro mas deixou-se ficar... a saborear o momento. Filipe estava encostado às suas costas com o braço direito sobre ela. A sua mão pousava suavemente no seio destapado e frio. Sofia sentia a respiração quente no seu pescoço e fechou os olhos, revendo em câmara lenta os melhores momentos da noite. Era capaz de se habituar com facilidade àquele homem. Tinha sido um momento perfeito!
Filipe mexeu-se e acordou inspirando profundamente.
- Bom dia! - ironizou Sofia, visto que era ainda de madrugada. - Ainda bem que trouxeste as mantinhas. - disse virando-se para ele, beijando-o apaixonadamente e ajeitando a manta para se cobrirem melhor e se esconderem da natureza que os rodeava e observava curiosa.
- Hummm... gostava de ser acordado com este beijo mais vezes!-disse Filipe sorrindo e retribuindo o beijo de Sofia com outro, mais prolongado, ousado e apaixonado.
O beijo acabou por ser o acender do rastilho para novo momento de paixão. Sofia colocou-se sobre Filipe sentando-se sobre o seu estômago. Sorriu maliciosamente para ele e perguntou:
- Vamos embora ou ficamos mais um pouco? Acho que ainda não experimentámos tudo... - piscou-lhe o olho enquanto o acariciava no pénis de novo pronto para novas movimentações.
- Ui, eu não quero ir a lado nenhum Sofia!... Podes continuar o que estás a fazer! - disse Filipe levantando ligeiramente o tronco e apoiando-se nos antebraços para visualizar e memorizar aquele momento. O que Sofia tinha de inocente e educada tinha também de ousada e provocadora e Filipe estava a adorar conhecer aquela miúda morena e sensual. Seria mais uma paixão de verão, mais uma tesão provocada pelos dias quentes daquela estação? Possivelmente seria apenas mais uma grande noite de verão!!
- Quero provar-te! - disse ela imediatamente antes de se posicionar de modo a poder envolver o pénis duro de Filipe com os seus lábios. Filipe gemeu e fechou os olhos perante tal situação inesperada. Sofia estava a ser uma maravilhosa surpresa. Voltou a abrir os olhos e ficou deliciado a vê-la, a senti-la... Os seus lábios grossos e bem desenhados, em conjunto com a língua, as mãos dominadoras, os movimentos ritmados, os seus olhos amendoados que sorriam de prazer... tornavam aquele momento em algo inesquecível. Acariciou o seu cabelo encaracolado e agarrou-o de modo a dominar os seus movimentos... Não queria precipitar-se já num orgasmo...
Com alguma perícia inverteram as posições e foi a vez de Sofia render-se às carícias do surfista que ávido perdeu-se no meio das coxas de Sofia... estava quente e húmida. Filipe percorreu o interior das pernas com beijos e pequenas dentadas que faziam Sofia contorcer-se num misto de arrepios e prazer. As suas mãos agarravam no cabelo do surfista e conduziram-no ao centro, implorando para que Filipe lhe beijasse o sexo e por ali se ficasse, a brincar, a provar, a lamber e a provocar espasmos e arrepios que percorriam o corpo e dominavam a mente de Sofia, que por instantes deixara de pensar, de ser racional... só conseguia sentir, sentir, sentir!  Gemidos de loucura e prazer saiam da boca de Sofia, que nem as ondas do mar conseguiam abafar.
- Ahhh, Filipe! Quero-te tanto... - disse Sofia olhando nos olhos azuis do surfista. Os olhares denotavam fome e sede um do outro, fome e sede de mais um orgasmo, de mais uma explosão dos sentidos.
Sofia empurrou Filipe que ficou de novo deitado, agora já quase na areia, mas naquele momento já nada importava, naquele momento valia tudo... Sofia senta-se sobre Filipe e ficam de novo encaixados na perfeição. De novo os dois corpos passam a ser um só. Sofia agora está no controlo dos movimentos e Filipe aproveita a posição para beijar a agarrar os seios de Sofia. Ambos estão loucos de prazer e a excitação atinge um nível em que já nenhum dos dois quer parar...
Filipe, percebendo que a excitação de ambos está num crescendo, está onde não há volta a dar, onde é o tudo por tudo... agarra as nádegas de Sofia, de modo a ajudar nos movimentos, cada vez mais rápidos e ritmados.
Beijam-se, lambuzam-se os movimentos são cada vez mais rápidos e irracionais. Acabam por atingir um orgasmo simultâneo, explosivo, arrebatador e sem comparações com qualquer outro fenómeno da natureza...
Preocupados com as horas acabaram por se vestir rapidamente e voltar para casa. Combinam que seria um segredo entre eles. Filipe tinha a sua namorada e Sofia afirmava a pés juntos que também só queria uma aventura. Tinha saído há pouco tempo de um namoro e não gostava de se sentir presa a ninguém.
Ambos tentavam enganar-se a eles mesmos... mas nunca o iriam admitir.

No dia seguinte bem cedo, Sofia acordou com o som irritante do despertador e pegou de imediato no seu telemóvel. Tinha uma nova mensagem, do Filipe. "Minha querida, voltei para Nazaré. Tudo o que se passou connosco foi espetacular, mas eu tinha de voltar para a minha namorada. Espero que compreendas. Um beijo. Filipe"

2 de janeiro de 2017

Mais uma mensagem XVII

De volta a agosto de 1999...
Sofia apresentou o Filipe a Rita como sendo o primo de Carlota... só tinha lá ido a casa  com ela para ir buscar as coisas para a praia.
Enquanto preparava o saco da praia, mudava de roupa e vestia o biquíni, a sua irmã esteve à conversa na sala de estar com ele e pareceu não suspeitar de nada. Aquele giraço não era o novo namorado da sua irmã... Acabou por ir para a praia também com eles e tanto Sofia como Filipe mantiveram o plano anteriormente delineado e deixaram os prazeres carnais para um momento mais oportuno... que não demorou mais que umas horas a surgir.
Após o jantar em casa com os pais e a irmã Sofia anuncia que vai sair com umas amigas do trabalho e que deve voltar tarde.
- Não esperem por mim acordados ok? Eu já sei que quando saio com elas é para pormos a conversa em dia... - mentiu Sofia com um ligeiro sentimento de culpa mas não podia contar a verdade à sua família, não podia contar que ía sair com um rapaz que mal conhecia e que de certeza que iriam fazer coisas que os pais não iriam gostar de saber...
Entrou na carrinha pão de forma com o coração acelerado... olhou para ele que a brindou com o seu sorriso...
- Oi jeitosa! Pronta para uma voltinha na carrinha mais fixe do território nacional?
Era mesmo vaidoso aquele gajo, mas Sofia gostava da maneira descontraída e simples de ele ser.
- Olá Sr. Convencido... onde me levas?- perguntou Sofia enquanto colocava o cinto de segurança.
- Podia levar-te a muitos sítios mas agora só me apetece levar-te ao céu e ficamos por lá até nos fartarmos...  - piscou-lhe o olho e arrancou com o carro deixando Corroios para trás.
Durante o trajeto foram conversando e brincando, mas ambos pensavam no momento daquela tarde no elevador onde mais uma vez tinham demonstrado que existia uma enorme atração entre eles. A antecipação do momento que se avizinhava deixava Sofia ansiosa... Colocou a sua mão na perna de Filipe e perguntou-lhe se sabia para onde iam...
- Sim estamos quase a chegar... Não te preocupes...
Afinal Filipe sabia bem para onde íam... Praia da Riviera. Sofia fartou-se de rir:
- Na praia Filipe? Trouxeste-me para a praia... ahahah... Ok...
Saíram do carro e Filipe pegou na mochila que tinha umas mantinhas no caso de a noite arrefecer, aproximou-se de Sofia, ladeou a sua face com ambas as mãos e beijou-a loucamente. Sofia abraçou Filipe e recebeu o beijo ansiado deixando que o surfista a descobrisse com a língua. Encostaram-se e Sofia percebeu a grande excitação de Filipe... deixando-a ainda mais excitada e pronta para o que iria acontecer a seguir.
Estava uma noite escura, lua nova... ótimo para casais de namorados que não têm 4 paredes para se deleitarem, para se amarem.
Filipe estendeu uma manta numa duna de areia, numa zona rodeada com alguma vegetação. Sofia observava-o e só pensava em tirar-lhe aquela t'shirt e poder sentir a sua pele, os seus músculos ligeiramente trabalhados, o seu sabor.
Filipe aproxima-se de Sofia e passa os dedos pela sua face...desce pelo pescoço... pelo ombro... descendo até à mão entrelaçando os seus dedos carinhosamente nos dedos trémulos de Sofia. Beija-lhe carinhosamente o pescoço e sussura-lhe ao ouvido "Quero-te"... Sofia estava já em êxtase e queria mais, queria sentir o corpo de Filipe  no seu... Filipe puxou-a  até à manta, cuidadosamente estendida na areia e deitaram-se lado a lado.
- És tão linda Sofia e excitas-me de uma maneira que nem imaginas...
- Ohhh Filipe... cala-te e beija-me - diz Sofia enquanto se aproxima dele e o beija apaixonadamente.
A partir daqui não há diálogos que acompanhem a imagem. A situação fala por si própria.  Aos poucos foram tirando a roupa, descobrindo cada centímetro um do outro... As mãos tornaram-se autónomas e tocaram nos sítios certos... provocando gemidos silenciosos e sensações fortes. As bocas e línguas percorreram os sítios certos, onde as terminações nervosas permitem ter sensações extraordinárias e que parecem ter sido feitas apenas para sentir prazer sexual. Ambos viviam aquele momento com paixão, com ardor e com vontade de se unirem num só corpo.
Filipe colocou-se sobre Sofia apoiando-se nos cotovelos, o cabelo num desalinho e um olhar de desejo... a boca semiaberta e um sorriso apaixonado perante o quadro que vislumbrava. O cabelo longo e negro de Sofia emoldurava a sua face rosada, os seus lábios carnudos e vermelhos de tanto beijarem Filipe, os seios inchados e arrepiados... Sofia estava pronta... e Filipe penetrou-a devagarinho, para sentir todos os centímetros húmidos e escorregadios do seu interior.
Ambos gemeram, ambos sentiram, ambos quiseram mais e mais. A loucura do momento levou-os a pensar que queriam estar assim para sempre... A sensação de prazer chegava a todos os nervos dos dois corpos. Os movimentos tornaram-se mais rápidos, mais carnais... as mãos de ambos viajavam pelos corpos... os beijos ardentes e molhados... os olhares de desejo e satisfação trocados... tudo indicava que a excitação ía culminar num momento explosivo e gigantesco de prazer. Filipe aumentou a cadência dos movimentos ... Sofia enterrou as unhas nas costas do surfista, fechou os olhos arqueando ao mesmo tempo as suas costas para receber todo o prazer que Filipe lhe estava a dar... e durante alguns segundos ambos multiplicaram por dois todo o prazer que sentiam... rebentando num orgasmo partilhado... um momento mais que ansiado. Dois corpos que se tornaram num só...
Terminada a explosão de prazer, restaram as respirações ofegantes,  os suspiros de cansaço e os sorrisos de felicidade.
- Tão bom...Filipe! - disse Sofia aninhando-se nos braços do surfista, que entretanto já se tinha deitado a seu lado, beijando-lhe levemente o braço onde pousara a sua cabeça.
- Sofia... és linda! Quero-te mesmo... -disse Filipe beijando os caracóis despenteados de Sofia que fechara os olhos e saboreava o momento... Não se iria esquecer daquele dia... nunca! 

1 de janeiro de 2017

Mais uma mensagem XVI

Havia um mundo de  conversas para pôr em dia... Sofia e Filipe tinham muito que falar, precisavam esclarecer tudo e quem sabe fazer planos para o futuro.
Resolveram sair juntos nessa noite. Iriam jantar a qualquer lado e talvez beber um copo num barzinho recatado e calmo onde pudessem estar à vontade para conversarem e matarem saudades um do outro. O Miguel e a Madalena ficariam a dormir em casa da tia, mãe da Carlota, a principal culpada por se terem conhecido. Os miúdos gostaram de Sofia e queriam ter ido com eles... A inocência da tenra idade não lhes permitia compreender a importância daquele momento para os dois adultos. Poderia ser o virar de página, o iniciar de um novo capítulo nas vidas de todos eles. Acabaram por ficar bem, depois de Sofia lhes prometer que iriam conhecer, no dia seguinte, o Kiko.
Filipe ouvira falar na renovada rua em Cacilhas, Cândido dos Reis e pediu a Sofia para lá irem jantar.
- E que tal se repetíssemos a nossa primeira refeição juntos. Lembras-te? Comemos pizza? - inquiriu divertida.
- Como é que me poderia ter esquecido...? Foi aí que tudo começou. E também me lembro do balde de água fria quando chegámos à tua casa e estava lá a tua irmã.
Riram-se os dois à gargalhada ao lembrarem-se desse momento tão embaraçoso mas divertido.
- Vamos então para Cacilhas. Vais conhecer a Máfia das Pizzas, onde se come muito bem! O ambiente e atendimento são 5 estrelas. E estaremos à vontade para conversar...
Sofia olhou para Filipe com carinho... Não parecia que tinham estado afastados tantos anos. Pior que isso era pensar como é que conseguiu viver tanto tempo sem o procurar, o que durante alguns anos foi a sua obsessão, procurava-o apenas para umas horas de amor e sexo num qualquer motel ou pensão. Tinha sido uma relação estranha, da qual não se orgulhava, daí nunca ter contado a ninguém que tinha sido a amante do homem que ela queria para seu marido, mas que ele apenas a considerava como a segunda escolha.
Dirigiam-se para Cacilhas no carro do Filipe, um Nissan Qashqai cinzento, em silêncio. Sofia recordou-se dos bons momentos que passaram na carrinha pão de forma... Na rádio tocava The Sound of Silence dos Disturbed.
Filipe procurou, com a sua mão direita, a mão de Sofia e ambas entrelaçaram-se como não acontecia há muito. Ambos os corações bateram mais rápido, como que a avisar os seus donos que vinha aí um momento tenso...
Pegou na mão dela levou-a até aos seus lábios e deu-lhe um beijo, fazendo Sofia estremecer e fechar, momentaneamente, os olhos
- Desculpa - disse ele - Desculpa pelos anos todos que não te soube dar o valor que merecias... Desculpa por não ter percebido o quanto te fiz sofrer.
Sofia ficou em silêncio e soltou a sua mão da dele voltando a colocá-la na sua própria perna.
- Eu voltei após estes anos todos para te pedir perdão, Sofia... - Filipe estava ansioso e conduzia a 20km à hora para poder olhar bem para Sofia. Continuava linda, continuava a ser a miúda quente e sensual que Filipe tanto amara sem saber. Era amor o que tinha sentido por ela... e continuava a sentir!
- Filipe tu não imaginas o que eu passei... - disse Sofia virando-se no banco do carro para poder vê-lo, olhá- lo nos olhos azuis que pareciam conseguir ler-lhe o que estava escrito no coração. - Achas que eu gostava da vida que tínhamos? Achas que eu era feliz ao saber que vivias com outra pessoa... quando tudo o que eu queria era...- Voltando a olhar para a estrada-  Eu queria que fosses só meu! Não é fácil desculpar-te... esquecer tudo o que se passou. -rematou Sofia com um nó na garganta e com a voz alterada prestes a chorar.
- Eu sei minha querida... agora eu sei... - voltou a pegar na mão de Sofia -  Quando te perdi... quando te afastaste e pediste para não te procurar mais, foi quando eu vi que era a ti que eu amava. Também sofri muito, mas principalmente sofri por te ter feito sofrer. Amava-te e não sabia que te amava... pensava que era só tesão e paixão...
- Filipe... e porque só me procuraste agora? - Sofia continuava confusa com tudo o que ouvia. - Casaste com a Patrícia? Ela é a mãe dos teus filhos? Onde é que ela está?
Após estas perguntas um carregado silêncio ecoou no carro... Estavam a chegar a Cacilhas e Filipe procurava estacionamento.
- Conto-te tudo à mesa do restaurante, pode ser?

27 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem XV

Sofia chegou ao parque da Paz num instantinho, pois havia pouco trânsito, no entanto, foi difícil arranjar um lugar para estacionar o seu carro. O parque estava cheio de gente: famílias inteiras que aproveitavam o bom tempo para dar uma corridinha, andar de bicicleta ou simplesmente passear; grupos de jovens que jogavam à bola e ainda casais de namorados que deitados no relvado faziam juras de amor eterno e trocavam beijos apaixonados.
Sofia colocou os seus óculos de sol na cabeça, a servir de bandolete, apertou o fecho do seu casaco desportivo de penas até acima e ajeitou o cachecol de maneira a proteger o pescoço do frio que se fazia sentir. Era difícil sentir-se sensual ou atraente com toda aquela roupa e recordou com um brilho especial no olhar, o dia de verão em que conhecera Filipe. Ficou alerta procurando o surfista loiro de olhos azuis e duas crianças, que nem sabia como eram... seriam dois rapazes, um casalinho? Foi andando e apreciando o  calor do Sol daquele dia de inverno e dirigiu-se até ao grande lago que se encontra no meio do parque.
Ao longe pareceu-lhe ver uma silhueta familiar, mas apesar de se terem passado dez anos Sofia reconheceu-o. As diferenças centravam-se no cabelo... era agora bem curtinho. Filipe jogava à bola com duas crianças pequenas, não teriam mais de dez anos. Um menino e uma menina... os filhos dele!
Ficou emocionada e parou a observá-los ao longe. Como era possível que a vida tivesse dado tantas voltas e os filhos dele não fossem também dela? A culpa era em parte dela, mas sabia que o Filipe nunca tinha tomado a atitude que levaria a que pudessem sonhar num futuro a dois. Sofia tinha sido sempre a sua amante e nunca mais do que isso. E a relação acabara mesmo por isso... por Filipe nunca ter deixado a sua namorada surfista.
Resolveu ir ter com eles mas nem sabia como se dirigir a ele... Um simples "olá, tudo bem" um beijo ou um abraço carinhoso... E a esposa? Haveria uma mulher? Quem seria a mãe dos meninos?  Possivelmente seria a nazarena, mas por alguma razão não se encontrava com eles.
Filipe estava com a bola de futebol nas mãos quando a viu... Os seus olhares fixaram-se e logo as pernas de Sofia fraquejaram, o coração acelerou e as borboletas, lá no estômago, bateram as asas a um compasso digno de uma banda sonora de um qualquer filme romântico. Sofia queria parecer calma e serena mas os seus lábios secaram ao ponto de ter de passar a língua para os humedecer...
Ambos sorriram e, apesar de não saberem, o pensamento silencioso que lhes passou na mente foi o mesmo e gritava:"amo-a"... "amo-o"...
Filipe deixa cair a bola e, observado de perto pelos dois filhos dirige-se em passo apressado até Sofia:
- Sofia... minha querida... - ao proferir estas palavras aproxima-se e abraça-a. Um abraço apertado que matava as saudades sentidas por ambas as partes. Um abraço que esteve tantos anos à espera de ser libertado. Um abraço que fazia esquecer todo o tempo que estiveram separados.
Sofia deixa-se levar pelo abraço, retribuindo o calor e a paixão que sentiu... Peito com peito, braços e mãos nas costas um do outro... Filipe enterra a sua face no cabelo de Sofia inspirando o seu cheiro, querendo guardar aquele momento para sempre, querendo que de repente estivessem sozinhos no mundo, querendo que o tempo parasse para poder deliciar-se, lambuzar-se e voltarem a ser um só.
Sofia, de cara encostada ao peito do surfista ouve o seu coração apressado que parece querer fazer uma batalha com as suas borboletas, sente o corpo que tão bem conhecera e que parece nunca ter deixado de conhecer e suspira profundamente, sussurando, mas querendo gritar, "ohhh Filipe..."
- Quem é essa senhora pai? - chamados à realidade pelo filho mais novo de Filipe, afastam-se sorrindo e com os olhos brilhantes Filipe responde ao filho:
- Esta é a Sofia. Foi por esta senhora que o pai quis voltar a Lisboa. Já vos falei dela... lembras-te Miguel?- perguntou carinhosamente ao rapazinho enquanto lhe ajeitava o gorro na cabeça que teimava em sair.
- Olá Sofia... - disse a menina loirinha, aproximando-se dela de bracitos abertos pedindo um abraço...- Eu sou a Madalena e o papá disse que tu eras muito bonita e és mesmo!
Sofia sem saber o que pensar ou dizer, baixou-se e abraçou a Madalena agradecendo e dizendo-lhe que também ela era linda.
O momento estava pejado de emoção, de sentimentos puros mas Sofia tinha tantas questões... e a mãe? E porque tinha ele contado aos filhos sobre ela? E porque é que ela se sentia mais apaixonada que nunca?
- Olá Miguel! Posso dar-te um abracinho? - perguntou Sofia ao miúdo que logo acenou que sim com a cabeça. Durante o abraço Sofia olhou para Filipe e nem quis acreditar... O surfista durão de olhos azuis chorava ao ver aquela demonstração de carinho dos filhos para com Sofia.
- Ai Filipe... temos tanto para falar... Preciso perceber o que se passa aqui... - disse Sofia olhando para Filipe com um brilho  nos olhos, enquanto estendia as suas mãos aos dois pequenitos que rapidamente e com dois sorrisos, lindos e iguais ao do pai , se apressaram a agarrá-las, um de cada lado.
- Sim minha querida- disse Filipe enxugando as lágrimas e colocando um sorriso na cara - precisamos falar!

23 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem XIV

O som insistente do toque do telemóvel despertou Sofia. Era o despertador que estava programada para tocar às 7horas da manhã, todos os dias... Sofia adormecera no sofá e esquecera-se de o desligar... não precisava acordar tão cedo ao sábado...
"Bolas... o Filipe... a Rita... adormeci." Sofia senta-se apressadamente no sofá e um esgar de dor percorre a sua face, pois uma noite no sofá dava-lhe cabo das costas. Endireitou ligeiramente as costas e massajou suavemente o pescoço tentando minimizar o mal-estar. Possivelmente a dor passaria após um bom banho e alguns alongamentos... Mas antes tinha de saber da sua irmã. Será que tinha chegado bem a casa? Sobre o que teriam conversado durante o jantar? Como seriam os filhos dele?
Tantas perguntas fervilhavam na sua mente... Tal como ao longo dos tempos que esteve com Filipe. Havia sempre dúvidas, anseios, bloqueios, becos sem  saída.
Sentia-se um pouco perdida sem saber o que fazer... mas sentia uma enorme vontade de falar com Filipe. Lembrou-se do que sentia quando estava com ele. Ele sabia fazê-la feliz! Sofia fechou os olhos e sentiu o coração a acelerar ao visualizar o surfista deitado ao seu lado após uma maravilhosa noite de sexo. Era onde melhor se entendiam, na cama...
"Sofia, esse tempo já lá vai... nem penses em voltar a cair na teia desse gajo..." - pensou enquanto se levantava e dirigia à cozinha à procura do Kiko.
- Bichano, onde estás Kiko?
Kiko surge logo por trás da dona, vindo do quarto onde dormira a noite toda. Com o seu ar altivo escapa-se sorrateiramente a uma carícia da dona e dirige-se ao pratinho da comida que estava vazio.
- Ohhh, a dona é má... vamos lá abrir uma latinha "pro" Kiko. - diz Sofia baixando-se e fazendo umas festinhas no dorso do seu amigo.
Depois do pequeno-almoço e de um bom banho Sofia sentia-se enérgica e pronta para enfrentar Filipe. Aliás, sentia uma certa ansiedade em voltar a vê-lo. Já há mais de dez anos que não se viam e estava curiosa por saber se aquele homem ainda a faria vibrar como antes, se ainda a faria ficar com as pernas a tremer e sem fôlego como acontecia sempre que se beijavam ou sempre que recebia uma mensagem dele com apenas uma palavra "Quero-te".
Dez da manhã foi quando ganhou coragem para lhe mandar uma mensagem: "Olá! Podemos encontrar-nos? Gostava de conhecer a tua família! Beijos. Sofia".
Agora só lhe restava esperar pela resposta mas Sofia sentia-se nervosa com este possível encontro. Iria conhecer a mulher e os filhos... Iria rever o único homem com quem queria ter continuado a partilhar uma cama. Com quem partilhara o seu corpo, a sua mente, as suas fantasias, as suas loucuras... O que iria sentir quando estivesse de novo ao pé dele?
"Nunca mais responde..." - pensou ansiosa.
Entretanto mandou também uma mensagem à sua irmã "Espero que tenha corrido bem o jantar. Chegaste muito tarde a casa? Beijinhos" e assim,  ficou à espera de duas mensagens. Ligou a televisão mas não prestou atenção ao que estava no écran, pois não conseguia desligar-se do écran do telemóvel.
Cerca de 2 minutos depois Filipe respondeu "Olá Sofia! Nem sabes como fiquei feliz com a tua mensagem. Estou no parque da Paz com os miúdos... vem cá ter! Podes?"
Sofia voltou a sentir as borboletas que há uns anos pareciam ter emigrado do seu estômago... Parque da Paz... foram muito felizes nesse local. E enquanto a sua mente vagueava por esse parque magnífico da cidade de Almada mas numa outra data, o telemóvel vibrou com outra mensagem do surfista: "Quero-te..."
Ao ler esta última mensagem Sofia quase que levantou voo graças às borboletas que ficaram doidas... e no seu baixo-ventre voltou a sentir a excitação que sentia de cada vez que ia ao encontro daquele loiro de olhos azuis...

22 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem XIII


Passava pouco das duas da tarde quando Sofia e Filipe saíram do estacionamento perto do centro comercial M Bica e rumaram até suas casas. Acenaram um último adeus com sorrisos rasgados de felicidade e excitação... já não eram uns adolescentes, mas pareciam!
Sofia seguia rumo a Corroios onde vivia com os pais e com a Ritinha e fazia uma lista mental sobre o que ainda tinha de preparar para levar para a praia. Queria levar um livro qualquer.... para não estar sempre a olhar para o surfista que lá ía estar, a provocá-la com aqueles abdominais, com aquele sorriso ladeado pelos lábios mais bonitos que Sofia já tinha visto! Estava a ficar muito calor ou seria apenas a adrenalina a correr nas suas veias?
Na rádio tocava MrJones dos Counting Crows e Sofia aumentou o volume até fazer estremecer a manete das mudanças. Parada num sinal vermelho encetou uma dança possível para quem está sentada ao volante dum carro. Olhou pelo retrovisor e não quis acreditar... a carrinha pão de forma estava mesmo atrás de si... "mas então o gajo não ía para casa"? - questionou-se Sofia olhando para trás para o loiro sorridente que a seguia. Assustou-se com o som estridente da buzina da carrinha ... Filipe avisava-a que o semáforo tinha passado a verde.
Sofia levantou o braço direito e esticou-lhe o dedo do meio sorrindo e lá arrancou. Durante todo o trajeto até casa foi "seguida" por ele e logo se apercebeu da sua intenção... e se não era a sua intenção, então seria a dela. Sentia-se estranhamente pronta para estar com ele a sós onde pudessem transformar as fantasias em realidade.
Sofia estacionou em fente da pastelaria Charme e Filipe conseguiu lugar do outro lado da estrada. Apearam-se quase em simultâneo e Sofia, olhando para o surfista, colocou o dedo indicador à frente dos lábios, pedindo precaução. Ele acenou demonstrando que percebera... Não iam dar nas vistas.
Seguida de perto mas com uma distância controlada encaminharam-se rapidamente para a porta do prédio. Sofia desastradamente deixa cair as chaves quando tentava abrir a porta. Baixou-se para as apanhar e percebeu o olhar curioso e descarado do surfista para as suas torneadas e morenas pernas. Sorriu envergonhada, mas divertida, enquanto abria a porta do prédio. O hall de entrada todo revestido a azulejo mantinha uma temperatura fresca e bem mais agradável do que a que se sentia lá fora, no entanto, aqueles dois corpos que estavam a segundos de se tocarem... ardiam de excitação.
Seguiram até ao elevador em silêncio, porém, quase que se ouvia o bater acelerado dos dois corações inquietos e sedentos. Filipe apressou-se a carregar no botão de chamada do elevador ficando depois de costas para o mesmo e de frente para Sofia. Pegou-lhe no braço com determinação e puxou-a bruscamente de encontro a si... "Deixas-me doido" sussurrou-lhe ao ouvido, deixando Sofia arrepiada e com a respiração ainda mais ofegante. Agarrando-a pelas costas apertou-a ainda mais contra si e beijou-lhe a curva do pescoço... Sofia sentia a barba de dois dias arranhar-lhe o pescoço e sabia tão bem... Fechou os olhos e apreciou a sensação que percorreu o seu corpo e a fez estremecer por dentro.
Ouve-se o ruído do elevador a chegar e os dois corpos ansiosos pelo doce prazer da carne afastam-se contrariados. Queriam ser só um corpo. Queriam ser o encaixe perfeito e nada mais interessava naquele momento. Entraram no elevador de mão dada e já não sorriam... as suas faces, ruborizadas pelo sangue que corria nas veias a uma velocidade vertiginosa, demonstravam sede e fome um do outro. Os seus olhares tornaram-se selvagens e quase irracionais. Ali já ninguém era racional... o instinto animal ditava as regras.
Botão de quinto andar carregado, portas fechadas e dá-se o beijo de tirar o fôlego a qualquer um deles. Filipe, descontrolado, deixa que, finalmente, as suas mãos agarrem nas mamas de Sofia  apertando-as suavemente... fazendo soltar na sua parceira, um gemido de prazer por entre o beijo molhado, sedutor e carnal. Sofia passava as suas mãos pelas costas enormes do surfista e nem conseguia pensar direito... apenas sentia e queria continuar a senti-lo.
Elevador parado, porta aberta e de novo têm de se afastar um do outro.
- Anda... não pensemos se está certo ou errado - diz Sofia ao surfista enquanto se dirigem rapidamente à porta de sua casa.
- Eu não tenho dúvidas nenhumas... - disse Filipe dirigindo um olhar doce à sua nova conquista - quero ter-te nos meus braços... já! - disse passando suavemente a mão pelos longos cabelos de Sofia e mordiscando o lábio, antecipando na sua mente tudo o que queria fazer com aquela morena sensual.
Sofia rodou a chave para abrir a porta e estranhou que a mesma estivesse destrancada... Abriu-a devagarinho com o coração sobressaltado e viu a sua irmã a sair da casa de banho... "merda"...
- Sofiaaaa, namorado novo??? - quase gritou Rita com um grande sorriso olhando curiosa, ora para a irmã ora para o surfista, que parecia assustado com o que se estava a passar...
"Que bela maneira de conhecer a cunhadinha... dassss" pensou o surfista enquanto toda a sua excitação descia vertiginosamente, aguardando por uma nova oportunidade...

19 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem XII


O ambiente ficou carregado com energias muito negativas e a excitação que sentia há pouco tempo dava lugar a um sentimento de vazio e de desilusão. Sofia percebeu que Filipe mostrava agora muito bem aquilo que a amiga Carlota tinha dito sobre ele, era um homem que conquistava corações e depois destruía-os com muita facilidade. Estava a tentar fazer o mesmo com ela... mas ela não deixaria. Não pretendia dar o seu coração tão cedo.
- Filipe, porque foi então aquele intenso e sentido beijo? Não pensaste na tua namorada na altura ou só me beijaste porque achavas que eu não sabia de nada? Queres responder? - perguntou Sofia determinada a esclarecer o assunto.
- Olha Sofia, nem te sei explicar, mas devo dizer-te que amo a Patrícia e já temos tantos planos para o nosso futuro... Só que tu - voltou a olhar nos olhos de Sofia - só que tu tiraste-me o tapete. Tens algo em ti que me deixa com o coração a palpitar mais forte, não sei... és deslumbrante e tão sensual. - esboçou um sorriso sacana e carregado de uma sensualidade que não deixava Sofia indiferente.
- Não percebo Filipe... se calhar tens razão e ficávamos por aqui. Acabamos de almoçar e cada um segue a sua vida - disse Sofia com tristeza e pouco segura do que estava a dizer.
Entretanto são servidos pelo empregado que percebeu que o ambiente estava ligeiramente diferente entre os protagonistas da conversa.
- Bom apetite - disse Filipe piscando o olho a Sofia e voltando a sorrir.
Sofia nem sabia o que pensar... Ele só a queria como uma aventura, mas ela também não queria nenhuma relação sólida. Não queria manter compromissos sérios e ele continuava a provocar-lhe um formigueiro no estômago. Observou-o a cortar a pizza e a servi-la, a verter a sangria do jarro para os copos, a levar o copo à boca e ..., aquela boca que ainda há pouco tinha provado e aprovado, pelo sabor, pelo odor e pela mestria com que conduziu o beijo. Teve de voltar à realidade e acalmar a sua mente perversa e disponível e fingir que estava zangada, chateada, aborrecida... Começou a comer em silêncio e o mesmo só era interrompido pelos comentários abonatórios que Filipe ia fazendo à pizza. Estava a gostar!
Na mente de Sofia choviam ideias sobre como contornar a situação... Ela não iria admitir perante Filipe que não se importava nada com o facto de ele ter uma namorada, mas por outro lado não iria gostar de se sentir a outra, a amante, a segunda escolha... Ahhhhh...apetecia-lhe gritar. O que fazer? Continuavam a trocar olhares e sorrisos. Mas Sofia só pensava "Caraças, não foi isto que a minha mãe me ensinou... eu devia saltar fora já!"
- Filipe?? - disse Sofia num tom de voz quase inaudível - Eu não me importo... - Olhou-lhe no profundo azul dos olhos que pareciam não ter percebido onde ela queria chegar com aquela insinuação.
- Não te importas?? Não te importas com??? - Filipe, de faca e garfo nas mãos, olhar inquiridor e atónito, boca semi-aberta demonstrando espanto.
- Nada, nada... queria só dizer que... sei lá, para não ficares a pensar que estou chateada. - Sofia queria ter dito que não se importava de estar nos braços dele de vez em quando, Sofia queria ter dito que não se importava de ser a outra, mas não teve coragem.

Terminaram a refeição e voltaram para os carros. Combinaram que iam esquecer o que havia acontecido e deixar as coisas correrem ao sabor da maré. Nesse mesmo dia iriam à praia como estava combinado com a prima e o resto dos amigos e iriam tentar evitar-se... Sofia achou difícil mas prometeu cumprir.

Sofia entrou no carro do seu pai, fechou a porta e abriu o vidro. Filipe observava-a, através da lente escura dos óculos de sol, e adorava todos os seus gestos, deliciava-se com o ondular das madeixas de cabelo que tocavam os seios de Sofia que ele tanto ansiava tocar, sentir, apertar...
Sofia acabava de colocar o cinto de segurança quando foi surpreendida com um beijo de Filipe. Um simples beijo, seco, rápido, leve... mas carregado de significado... para ambos!
- És doido, és mesmo doido - disse-lhe ela, rindo às gargalhadas e pondo o carro a trabalhar. Sofia tinha agora a certeza absoluta que aquele surfista loiro de olhos azuis estava na "mesma onda" que ela...
- Tu é que me pões doido Sofia! Até logo - rematou ele a correr para a sua carrinha pão de forma, com uma ideia em mente...


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12 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem XI

O beijo foi tão inesperado que Sofia nem teve tempo de pensar ou de reagir... e manteve-se quieta durante os longos segundos que durou o beijo e apenas sentiu... Sentiu o cheiro quente e sensual do surfista, sentiu as suas mãos fortes e grandes a tocarem-lhe firmemente nas suas costas na curva da cintura, sentiu o sabor quente e molhado dos lábios e da língua que ardentemente procurava a sua. Um beijo quente, sensual e arrebatador que Sofia não queria que acabasse nunca...
Filipe entretanto coloca a mão direita na nuca de Sofia, os dedos penetrando os largos e suaves caracóis controlando ainda  mais o momento e desarmando a morena que tanto o provocava e excitava.
Terminado o beijo... testas encostadas, respiração ofegante e de repente Filipe afasta-se:
- Desculpa Sofia.... eu não tinha planeado nada disto. Espero que não me tenhas levado a mal... não me controlei! - Disse ajeitando o seu cabelo rebelde, demostrando algum nervosismo.
Sofia ainda tinha as pernas a tremer, encostada à carrinha, boca semi-aberta e respiração descontrolada queria dizer algo mas limitou-se a, instintivamente, passar a língua pelos lábios, como que a tentar prolongar o sabor do surfista, a tentar guardar na memória aquele momento.
- Vamos almoçar? - Foi o que conseguiu dizer sorrindo e ajeitando também ela o seu longo cabelo, atirando-o para trás das costas. Filipe sorriu também, e gravou na memória aquele gesto sensual que Sofia acabara de fazer com o cabelo.
Trancou a carrinha, guardou a chave no bolso das calças de ganga, levantando ligeiramente a t'shirt branca, deixando momentaneamente à vista uns abdominais trabalhados e morenos. Sofia viu e agradeceu a si mesma por estar atenta a tais pormenores pejados de sensualidade.
- Vamos a isso, estou cá com uma fome...
Seguiram lado a lado e em silêncio até à pizzaria que se encontrava no interior do centro comercial. Provocaram-se mutuamente com ligeiros toques de mãos que fingiam ser ocasionais e trocaram olhares silenciosos mas plenos de significado. Em cada uma das mentes um turbilhão de palavras e sensações ficavam guardadas, trancadas e amordaçadas até serem libertadas.
Era cedo e apenas uma mesa estava ocupada com um casal de idosos. Filipe escolheu uma mesa encostada a uma grande janela que dava para um extenso  jardim relvado, onde alguns casais de namorados passeavam de mãos dadas, e sentaram-se frente a frente. Ambos estavam excitados  mas também confusos com o que havia acontecido e não sabiam o que dizer. Olharam-se nos olhos e Sofia riu-se timidamente...
-Gostei do beijo, não precisavas pedir desculpa. - Disse baixando ligeira e timidamente a face.
- Gostaste? - Filipe ajeitou-se na cadeira e endireitou as costas, demonstrando surpresa.- Eu amei o beijo... Aliás,  desde o primeiro momento que te vi lá na praia que não me saíste do pensamento, mas... -Filipe foi interrompido pelo empregado que lhes levava o menu para escolherem e fazerem o pedido.
Sofia não tirou os olhos de Filipe que entretanto conversava com o empregado sobre o tamanho das pizzas e o tipo de massa.
Sofia nem conseguia pensar em comer pizza nenhuma... queria absorver e guardar para sempre aquele momento. Queria continuar a sentir as pernas a tremer, o coração a bater descompassadamente e aquela sensação estranha no baixo-ventre que denunciava que o seu corpo queria sentir muito mais do que beijos.
Sozinhos de novo Sofia voltou à realidade:
- Podes continuar... quando fomos interrompidos dizias ... "mas". Quero ouvir o que ias dizer a seguir. - Sofia sabia que ele ía mencionar que tinha namorada e que não podia fazer aquilo à rapariga, mas surpreendeu-se com o que ouviu a seguir.
- Sim, é verdade...-continuou Filipe- mas, tu tens uma relação e eu não me quero intrometer. Pelo que sei estão zangados mas poderão reatar ... - Sofia abriu muito os olhos, não acreditando que ele falava do Ricardo que já era mais do que passado.
- Filipe estás muito enganado... eu e o Ricardo já nada temos um com o outro. Mas eu sei que tu ... - interrompidos novamente pelo empregado resolvem escolher uma pizza do agrado de ambos e um jarro de sangria tinta.
- Mas eu sei que tu... tens uma namorada na Nazaré! - Disse Sofia friamente analisando ao pormenor a sua reação. Filipe desviou o olhar para a grande janela, o seu sorriso constante e lindo deu lugar a uma boca cerrada demonstrando preocupação ou desilusão. O facto de não encarar de frente Sofia e não lhe olhar nos olhos denunciou que não ficara confortável com o que lhe dissera e observando o jardim disse:
- Não sabia que sabias disso... A minha prima tem uma língua do caraças... 
Voltou a olhar para Sofia e apenas disse que se calhar era melhor mudarem de assunto...

10 de dezembro de 2016

Mais uma mensagem X

Raios de luz entravam pelas persianas mal fechadas e incidiam diretamente na face de Sofia que despertava de uma noite descansada. Abriu os olhos e fechou-os novamente incomodada pela luz forte do sol. Lembrou-se imediatamente de Filipe, e no que tinha pensado fazer para poder estar de novo com ele... Ia telefonar já à sua amiga Carlota e sem abrir o jogo, pedir-lhe-ía o número de telemóvel do surfista de olho azul.
Sentou-se na cama e espreguiçou-se durante uns segundos, esticando os músculos que pareciam doridos de tantas horas deitada na cama. Na mesinha de cabeceira o despertador mostrava que já passava das 10 horas da manhã. Já há muito tempo que não dormia 12 horas seguidas. Levantou-se e pegou no elástico para prender os seus caracóis num rabo-de-cavalo. Bolas, já estava tanto calor, mesmo tendo dormido apenas com um pequeno top e cuecas, acordara a precisar de um banho. Pegou no telemóvel que ficara a carregar durante a noite, desligou o carregador da ficha, enrolou-o e guardou-o na gaveta da mesa de cabeceira.
Olhou para o telemóvel e percebeu que tinha uma mensagem escrita de um número que não fazia parte dos seus contactos. Apressou-se a ler e, de repente, os seus olhos brilharam tanto que ofuscaram o brilho dos raios de sol que invadiam o seu quarto. Sorriu e despois de ler pela segunda vez a mensagem, deixou-se cair na cama de costas, telemóvel entre as mãos e junto ao coração. Desatou a rir dizendo " eu não acredito, eu não acredito".
Cerca de meia hora depois já estava pronta para sair de casa. Os pais tinham ido trabalhar e a irmã Rita devia ter saído mais cedo com as amigas. Assim, despachou-se no duche, vestiu um vestido prático e desportivo e calçou as sandálias novas que a magoavam um pouco no calcanhar mas combinavam na perfeição com o vestido.
Saiu de casa mas nem sabia bem o que fazer... só sabia que estava radiante e excitada com a mensagem que recebera de Filipe. Desde que a lera, um sorriso parvo teimava em não sair dos seus lábios. E a mensagem não era nada de especial mas por outro lado era tudo o que Sofia precisava naquele momento. "Olá Sofia. Hoje não fui à praia convosco mas amanhã irei lá ter. Podíamos beber um café na esplanada da praia. Que tal? Filipe, primo da Carlota"
Sofia não queria esperar tanto tempo para estar com Filipe... "Mas que parva, ele merece uma resposta e já mandou a mensagem ontem à noite... vou ligar-lhe!" - pegou no telemóvel mas... "E digo-lhe o quê? Olá Filipe, estou desejosa de te ver e de me perder nos teus braços... Que estupidez, não posso parecer tão oferecida e disponível".
Sentou-se ao volante do carro do pai, colocou a chave na ignição e ligou apenas o rádio. Tocava "You could be mine" dos Guns'n Roses, era o momento perfeito para telefonar ao surfista. Nesse momento recordou-se dos olhares trocados na praia e arrepiou-se... "Caramba... aquele gajo mexe comigo!"
- Estou? Filipe? É a Sofia, a amiga da Carlota! - a voz tremeu um pouco mas não pareceu desesperada...
- Sofiaaaa! Tudo bem? E então, aceitas a minha proposta? Por voltas das 15 horas bebemos um café?
- Olha... sabes... ehhhh... tenho que ir a Almada tratar duns assuntos e lembrei-me que podíamos almoçar... Conheço uma pizzaria muito boa. 
- Sofia... hum, como sabes que adoro pizas? Pode ser claro! Como combinamos?
Sofia acabava de estacionar bem perto do Centro Comercial M.Bica onde iria almoçar com o surfista de olho azul. Estava ansiosa e tinha a boca seca, não sabia o que ia acontecer a partir dali, mas sentia que precisava de estar com ele. Filipe era o género de homem com que sempre fantasiara, porém tinha uma namorada. Pensou também que possivelmente ele  seria fiél à namorada, e Sofia sairia perdedora desta guerra ainda antes de haver qualquer batalha.
Saiu do carro, pegou na mala e ajeitou o vestido... quando uma carrinha pão-de-forma azul clarinnha estaciona mesmo ao lado do seu carro. Era o Filipe e trazia na cara o sorriso lindo e sincero que fazia tremer as pernas de Sofia. Correspondeu com um sorriso tímido e ajeitou os longos caracóis demonstrando algum nervosismo perante o encontro esperado.
Sofia, ganhou coragem, fingiu que não se sentia excitada com a situaçao, deu a volta ao seu carro e dirigiu-se até bem perto da porta. 
- Oi.... que carro fixe!!! - foi a única coisa que lhe saiu da boca, tendo-se arrependido logo. Caramba, Sofia, "que carro fixe???". - pensou ela
- Gostas? - perguntou Filipe enquanto saía do carro e tirava os óculos de sol. - Vê lá dentro... foi toda renovada há pouco mais de um ano.
Sofia virou-se e espreitou para dentro da carrinha, colocando as mãos encostadas ao vidro, em forma de pala para conseguir ver o seu interior. Filipe aproximou-se e encostou-se de lado ao veículo do qual se orgulhava muito.
- Uauuu, muito bem! - disse Sofia ao mesmo tempo que se virou para Filipe e se apercebeu da pouca distância que os separava e suspirou... O olhar penetrante de Filipe, a presença tão próxima do surfista deixaram Sofia sem palavras e acabou por dizer com uma voz rouca - É linda!
Filipe aproximou-se ainda mais, tocou-lhe suavemente no queixo e sorriu dizendo:
- Tu és linda! - e sem tirarem os olhos um do outro, Filipe aproximou-se mais um pouco, tanto, que Sofia acabou por encostar-se à carrinha e fechar os olhos no exato momento em que os lábios de Filipe tocaram nos seus e as suas mãos a agarraram delicadamente pela cintura, puxando-a de encontro ao corpo musculado e quente de Filipe.